Louvor à Filosofia ou a Filosofia é o Sonho do Homem

À Wandyck Nóbrega de Araújo

Como se a nossa missão fosse gerar incenssantemente sem parar, fosse girar para sempre, mas sem perder a direção dos ventos e das coisas: assim me ouvi dizendo, entre a vigília e o sono, preocupado com as palavras da oração em louvor à Filosofia. Girar sim, girar sempre como satélites em torno do Ser e do Logos: de um Logos não em contraposição com o Mito, mas num perpétuo jogo com ele. Pois o Mito não passa da face misteriosa e oculta do Logos, que terá de ser continuamente por nós desvelada, para aclarar nosso próprio destino sobre a terra. Pois é do Mito que fala o Logos. Das iluminações, dos presságios, das forças do inconsciente que se querem incorporadas e assumidas pela Consciência para, cada vez mais, ativar o milagres do Ser nas suas mais surpreendentes epifanias. O milagre do Ser manifesto nos arquétipos, nos sonhos, nas prodigiosas utopias concebidas pelo homem.

Não se pode compreender uma visão filosófica que não ofereça lugar histórico para o fermento das utopias. Filosofia nenhuma se resolve num plano meramente epistemológico, quer segundo a teoria, quer segundo o método: pois se o saber é importante para o desenvolvimento das técnicas e para a manutenção da memória cultural, sem a inquietação pela mudança e pela conversão das estruturas e das instituições, quando estagnadas, jamais haveria no homem a passagem da esfera da natureza para a esfera da cultura e, consequentemente, dos valores. E sem valores jamais poderíamos conceber projetos de ser. Porque ser é acima de tudo um projeto mais do que um dado fácil e maleável a manejos dos que fazem da História apenas um episódio mesquinho para a concretização de ambições particulares e falseadoras de qualquer idéia de perfeição, de ordem e de grandeza.

É pelos valores que o homem se torna medida do seu próprio projeto de ser. É pelos valores que ele atribui encarnação aos mitos obsessivos que perpassam a sua história individual e coletiva. É pelos valores que as utopias passam a fazer parte do campo do possível, sempre reajustáveis em seu processo de renovada perfectibilidade com relação às exigências da cultura e da história.

Certa vez eu disse num poema (que se acha incluído num de meus livros, "O Rapto das Noites ou o Sol como Medida")

 

"As coisas mais distantes são aquelas que estão mais perto.
Nós nascemos distantes. Por isso buscamos,
Sem nos deter, a aurora viva
Em que tudo se deu.

E em demanda do que éramos erramos
Até à descoberta."

É, com certeza, o desprezo pelo que há de mais próximo que tem mais impedido a plenitude humana. Precisamente porque as coisas, na sua aparente proximidade, carregam a distância da sua própria origem e a transcendência do seu próprio fim. Porque nascemos antes do agora da nossa imanência é que nos abrimos à busca do que constitui o fundamento, o arché de todos os nossos anseios e interrogações. E é em demanda da nossa própria oroginalidade radical que, em nosso caminho de permanentes errâncias, pulsamos pela chegada à Descoberta. À Descoberta, em nós mesmos, do Ser. Porque o Alfa está no Ômega. O princípio está no fim. Na ausência de fins, tanto do ponto de vista ontológico, como do ponto de vista axiológico, está a decadência e a morte do Ser, decadência e morte expressas tão bem na vida política, social e econômica de certos povos que historicamente desesperaram da possibilidade de realizar seu próprio projeto existencial.

Quando as sociedades passam a ser dirigidas pelos medíocres, mentirosos e trapaceiros, militantes apenas dos seus interesses particulares ou daqueles interesses ligados à sua horda, os melhores decretos não passam de letras empacotadas que não visam, em sua calculada ilusão, atingir objetivo algum mas apenas escamotear a verdade das crises sob o jogo falseado e repetitivo dos slogans. A mentira, justamente por temer ou desprezar qualquer teste filosófico, só pode contentar-se com slogans: deles vivem os falsos políticos e os partidos, via de regra sem outro programa a não ser a promoção dos seus próprios conjuntos vazios. Por estarem escravizados à mentira, esses jamais conhecerão a experiência libertadora da Verdade.

Enganam-se, por outro lado, os que pensam que a filosofia não é o Sonho do homem, como se sonho só tivesse a ver com ilusão. Como se o sonho não fosse a outra face da Realidade. E como se a verdade tivesse necessariamente que ser a negação do Sonho.

A experiência radical da verdade, em que consiste a própria essência do filosofar, é experiência radical com o sonho mais profundo do homem que é a felicidade. Por isso os matadores do sonho do homem são também os matadores da sua felicidade. No momento em que interceptam a sua marcha ao porvir, por temor de riscos ou por resistência à mudança e à transformação, fazendo-o suportar a rotina de um tempo, que constitui a exclusão suprema da Verdade - pois a Verdade é o oposto da mesquinhez da rotina - eles comprometem a própria destinação humana. Os matadores do Sonho não passam de assassinos da Realidade. Pois a Realidade, estando mais em potência do que em ato, é a matriz de todos os sonhos e utopias; e é dos sonhos e das utopias dos artistas, dos estadistas, dos cientistas e dos filósofos que se alimenta o que entendemos até hoje por História e por Cultura. Assim como as invenções científicas de hoje foram o sonho de outrora - pois que é o avião senão a encarnação do mito de Ícaro? - as utopias que queremos ver realizadas no futuro não passam de pequeninas sementes que aimentamos no solo nem sempre fértil do nosso hoje.

Que outras coisas eu poderia dizer, no meu louvor, da missão e da promessa da Filosofia?

Autor: 
Ângelo Monteiro

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