Ângelo Monteiro dialoga com o tempo em novo livro

O poeta alagoano radicado no Recife Ângelo Monteiro entende que o tempo é o grande interlocutor de qualquer artista. No seu novo livro, Como virar as páginas da solidão (Confraria do Vento e Editora da UFPE, 225 páginas, R$ 55), recoloca no centro da sua escrita essa temática, entre sermões e versos carregado tanto de urgência como de serenidade. A obra, volta do autor à poesia depois de publicar o volume Seleção poética, em 2008, será apresentada em noite de autógrafos nesta quinta (28/8), às 19h, na Academia Pernambucana de Letras, com entrada gratuita.

Um dos principais poetas de Pernambuco na atualidade, Ângelo construiu desde os anos 1960 uma obra que trafega entre a poesia e a filosofia – não por acaso, lecionou sobre estética e filosofia da arte a UFPE ao longo da vida. Expoente da chamada Geração 65, dentro de Como virar as páginas da solidão ele constrói dois livros.

Na primeira parte, que empresta seu nome ao volume, Ângelo reúne uma série de sermões em prosa, em geral com uma página. “São sermões dirigidos ao tempo, em uma espécie de pregação impossível”, define o autor. Ao trabalhar com a perda, com a incomunicabilidade, com o vazio do presente e com o desejo de transcendência, o livro vai revelando a crueldade dessa marcha inevitável e fatal de vida.

Como o título sugere, trata-se de uma obra de contemplação do humano, ilustrada através do ato de “folhear a própria existência”, como aponta Ângelo. Um dos pontos impressionantes dos sermões é que, subvertendo o formato do gênero, o livro não tece só comentários morais ou conselhos: são textos sobre angústia, que refletem a falta de resposta da existência às questões que ela mesmo propõe. Como sugere o escritor, é um livro em que a paz – consigo ou com os outros – se mostra ausente.

“Criar essa tensão dentro do formato não é algo voluntário, mas é algo que faz parte da estrutura da minha própria poesia. Ela funciona um pouco a partir das oposições, até porque acredito que o barroco não é só um estilo histórico. Para notar isso, é só olhar a literatura latino-americana como um todo, em García-Lorca, Antônio Machado e até em Cortázar”, explica Ângelo. “Esse caráter antitético, cheio de extremos, é da própria vida, ela é feita de contradições.”

VERSOS
A segunda parte do livro, Canções sem rumo, surgiu sem o autor planejar. “Julgava que tinha abandonado os versos, mas ele se impuseram, de certa forma, vieram como uma avalanche”, comenta Ângelo. Essas “canções” já se iniciam afirmando o pouco que resta ao homem que não seja “as sombras e os sons / de um fim de festa”. 
Escrever, para o autor, é uma forma de compensar a perda a que estamos todos sujeitos e tentar escapar da incomunicabilidade. “A arte é um modo de salvar a cultura e a memória humana através da linguagem. Acredito que a poesia é a forma mais completa de fazer isso. Ela não resolve a nossa incapacidade de se comunicar, mas não deixa de apontar pequenas soluções. Eu vejo isso acontecer quando uma nova geração lê autores de outrora, por exemplo”, comenta.

Como “tudo marcha para a morte”, o poeta só vê três pilares que ajudam a enfrentar nossos assombros: a arte, a filosofia e a religião. “Não acredito em paraíso na terra – quem pregou isso, na verdade, terminou causando mais sanguinolência. Como pode haver felicidade se estamos sujeitos ao tempo? A vida é uma precariedade total, e a arte é uma forma de nos salvar disso”, comenta.

Pode parecer um pensamento mórbido, mas Como virar as páginas da solidão é um livro mais reflexivo do que meramente pessimista. Na verdade, a obra reflete a tentativa de Ângelo por encontrar beleza mesmo na solidão e na morte. Um caminho solitário, mas fundamental para o autor.

 

Jornal do Commercio

 28/08/2014

Data da Publicação: 
20 Agosto, 2014