HISTÓRIA DA TIA ELVINA

Senhora de altos linhos
e dama entre porcelanas
foi essa a velha lembrança
que da tia conservei
dos dias que a minha infância
sob o seu teto abriguei.
Onde a cachorra Sereia
e o quintal verde e salobro
eram riquezas de um rei.
Quando o piscar do Farol
no andar em que eu dormia
me dava medo mas gosto
para acordar no outro dia.

E Maceió tinha bondes
para esmagar as tampinhas
e delas fazer as contas 
do meu colar de alegria.

No céu de um tempo morto uma nuvem mais viva
um dia transportou-me a um endereço incerto
até à minha tia. (E me reconheceu?)

Levava-lhe um perfume
mas o perfume a entonteceu.

Ela era mais carne que perfume
mas foi como perfume
que ela enfim feneceu.

Morreu curvada sobre uma máquina
- a máquina que murchou os brios dela -
costurando para filhos que não eram seus.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
As Armadilhas da Luz

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