A BIBLIOTECA DE ALBERTO FREDERICO LINS

A biblioteca se abria como um nicho
cheio do lume aceso das promessas
e de aconchegantes viagens
que nos prendiam em seu chão.

Alberto, o mais maduro, entre mil livros
celebrava os seus anos como um sábio.
E em nossos corações também era aniversário:
que ruídos turvariam o seu ardente silêncio?

O diapasão das nossas vozes
ante os livros enfileirados
ressoava as paixões ainda não vividas:
que era leve sofrer.

A redenção estava nos livros
pois eles nos remiam das prisões do tempo
e da vala das coisas mais comuns.

Alberto através da lente exata dos seus óculos
já nos adivinhava e nos media
calculando entre nós aquele que mais louco
estaria disposto a trocar as negaças da vida
pela aventura torta de escrever.

Mas o vento que desfaz no céu as nuvens
também desfez, sob a cortina puída dos anos,
o dourado envolvente da moldura
que a velha biblioteca engrandeceu.

As estantes os quadros a mobília
também mudaram de lugar.
Hoje a biblioteca desfalcada
é o adolescente desfalcado dos seus símbolos

pequenos símbolos do Sonho em letras vivas
que a retina mantinha com fulgor
quando o céu viajava azul sobre as colinas
do meu fechado interior.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
As Armadilhas da Luz

Comentários

Comentar

Plain text

  • Nenhuma tag HTML permitida.
  • Endereços de sites e e-mails serão transformados em links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são gerados automaticamente.