ELES DIZEM QUE SOMOS TRANSPARENTES

III
Eles dizem que somos transparentes,

Mas os opacos crescem de figura.
Enquanto giram as pombas inocentes
O reino da serpente é o que mais dura.

Cegos à vida, às mínimas correntes
Se dobram, redobrando mais a usura:
Hábeis em seu coleio de serpentes
Encontram nos disfarces sua altura.

Se lhes coube a rotina ao sortilégio,
Coube-nos como duro privilégio
Buscar nas coisas o que for mais vão:

O que nelas é o múrmuro sentido,
Esse clamor de búzio em nós perdido
Da sua inquebrantável solidão.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Exílio de Babel

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