POÉTICA DA VIOLÊNCIA

Esses entendem da violência
A retórica dos gestos e dos nervos
O barulho, a explosão.
Não a força que se esconde
Sob uma aparência calma.

A força das marés minando as praias
Essa força eles jamais entenderão.
E por isso serão tragados
Em silêncio tragados
Com esse silêncio profundo
Da maré minando as praias.

Para que meus inimigos
Vendo-me as luvas tão brancas

Jamais pensem o que maquino
Embora com o ar tão leve.

E sem pensar que isso é força
Se deleitem dessa calma.

Não conhecem que a dureza
Fala às vezes com leveza.

Não conhecem o inimigo
Que lhes oferece trigo

E que no torpor do vinho
Os envolve de carinho.

Assim no torpor do verso
Os matarei de mansinho.

Não me ouvem falar de facas:
Antes de lírios, de fadas.

Mas não vêem que canto o presente
Sobre o seu cadáver ausente.

Ah! o mormaço da maré
Que os haverá de minar.

Ah! sementeira tortuosa
Que os saberá sufocar.

Ah! veneno que, às entranhas
Da vida de prosa e sanha,
Irá neles se entranhar.

Meu veneno puríssimo os atinge:
E com essa violência doce
Já há muito lhes quebrou o coração.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Rapto das Noites ou o Sol como Medida

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