RECEITA DE CORVO

É o corvo o avesso da águia?
Não, o corvo é o corvo,
E o avesso é a oposta força.

O céu da águia não tem ministros
Ela ministra o próprio vôo.

O corvo reina na sombra das intrigas
A águia reina na luz desamparada.

As garras da águia são domínio
As garras do corvo são rapina.

Mesmo quando desce a águia paira.
O corvo se curva. E só curvado
Ele arrebata as letras e as almas.

A águia não vive da tinta dos jornais:
Mas do azul do seu próprio vôo.

Por isso não se curva ante quartéis:
Ela comanda legiões.

A águia não rouba parênteses nem barras das máquinas:
Ela dispõe as coisas entre seus parênteses e suas barras.

Sua força não vem dos despojos do repasto
Alheio e cavo:
Sim, do fogo de suas asas.

Enquanto o corvo coloca as palavras
Em dóceis fileiras
Semelhando vagões a percorrerem o túnel.
Sem saída do Nada.

O corvo é gênio no curvar-se
E tornar os seus mais curvos e mais corvos.

Mais viva é a águia em seu iluminar-se.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Rapto das Noites ou o Sol como Medida

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