ELEGIA A JOÃO PAULO I

De mitra esse deus solar,
O báculo à mão, sorria:
Luz de um dia, que num dia
Deu-se toda em seu brilhar.
Em ser luz mas não durar
Seu brilho foi profecia.

Além do trono das horas
Cumpriu o seu pastoreio.
Por isso é que ele nos veio:
Porém, não só para agora.
De mitra foi o seu reino
E o báculo foi sua aurora.

E um Deus, mais Mãe do que Pai,
Mais do que dor, alegria,
Na cruz do solar sorriso
Do Papa se desfazia
Em nuvens de amor alado
Sobre a Barca que ruía.

Ruía a Barca de Pedro
E - apenas - ele sorria.
Ninguém suspeitou que o peso
Da Barca o submergia.
Mas o mundo viu surpreso
Que a treva minava o dia.

Quis ser João, dentre os fiéis,
E Paulo, dentre os gentios. 
Sombras dançavam-lhe aos pés,
Das mãos lhe escorriam fios
Dessa invisível luz breve
Que torna os rostos sombrios.

E a Barca se iluminava
Enquanto a treva crescia.
De mitra, esse deus solar,
Com o báculo à mão, o dia
Assim o achou sobre a Barca:
Mas ele não mais sorria.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Rapto das Noites ou o Sol como Medida

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