A ANUNCIADA

No princípio eras o nome
Que eu dava ao que amava mas desconhecia.
Fora do tempo e virgem na memória
Eu te anunciava assim: louvor e círio.

No princípio eras o nome
Que eu palpava em delírio no meu sono
Para acordar depois sobre o vazio.

Eu te chamava Irmã
Sem que ninguém notasse a quem eu chamava
E me olhavam surpresos os que me viam.

Eu te chamava Amiga
E continuava a caminhar sobre o deserto
Que a minha sombra ainda mais enegrecia.

Eu te chamava Amada
E - pedra intacta - em minha solidão
Nenhum raio descia.

Teu segredo eu guardava em meu segredo
Na chama que me devorava
Ao mesmo tempo que me protegia.

Por um acaso toquei-te a superfície
Com a ponta do meu cetro estilhaçado.
Minhas asas feriram-te: sim, sou tua guarda
Depois de descobrir-te atrás do nome
Que brilha sob o sol, ó Sóror, ó Amiga.

No princípio eras o nome
E foram em tuas mãos, banhadas de palavras,
Que reencontrei a tua face.

No princípio eras o nome:
Portanto só pela palavra me virias
Em forma de presença e redenção.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Rapto das Noites ou o Sol como Medida

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