A ESPERA DA LUZ

Como há de para a terra outra esperança
Erguer mais forte do que a própria carne,
Quem levado nas ondas sem cessar
Tem seu corpo tatuado de naufrágios?
Se sob as águas guarda ainda as chamas
E, vela, se mantém contra as geleiras:
Pode haver maior canto do que o canto
Que sobrevive à morte das sereias?
Ó precipício atroz que na garganta
Nasce e deságua o seu correr de trevas,
Como romper os fios enredados
De um destino que o prende à própria selva,
Se nunca lhe abre a luz anunciada
As portas mais secretas, e ave mansa,
Não lhe desce às feridas camufladas
Nos aparatos da mais rubra dança?

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Rapto das Noites ou o Sol como Medida

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