O SELO

Enquanto os demônios prosperam na sombra
(E adivinho sempre a sua proximidade)
Eu me abrigo em ti, como se em teu corpo
Recolhesses jovem
A força que ignoro no meu sangue.

Cordas novas, então, nascem-me da garganta
Para que eu te recite o nome
Como se fosse para sempre
- De um sempre da doçura sob os arcos
Na carne protegidos contra o Vão.
Que o porte marcial de bandeira do teu corpo
- Ó nave de Alegria, clara Festa -
O silêncio desfralde, que as sílabas envolva
Precipitadas, como chagas, no teu seio:
De mim nascidas,
Do além ou do nunca que há no homem.
Ó grandes e inequívocos caminhos do Sangue
Que em seus fios conduz o rumor da Presença
Apenas pressentida: nos portais de um dia
Nascido sob o Encontro.

Escutante, Ouvidora, Cálice do Nome,
Sejas tu Guardiã. Serena Guardiã
Dessa Arca de Angústia que é meu corpo
Onde a Palavra, viva, se exilou.

Pois dele nas fronteiras se debate,
Por ondas proferida, essa Palavra
Que dança, além das águas, o teu nome
De Irmã que em minha boca tem morada.

Que se cumpra na terra essa Palavra.
Quer vincule ou separe: seja lei.
Teu nome em minha boca fez-se lava
Que, caso em mim não sangre, morrerei.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Rapto das Noites ou o Sol como Medida

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