O RAPTO DAS NOITES

I

Perder-se e nada mais
Da vida querer senão
Mais e mais perdição:
Eis, doce raptora,
Tua dádiva mais sã.
Tu que recolhes o sêmen
Perdido às cegas no Sonho
E o preservas no cálice
Desdenhado das manhãs.
Tu que nas sombras te exaltas
E ofertas aos deuses o sangue
Jovem, e noturno, e danado
Dos teus irmãos e irmãs.

Tu que voas noite adentro
Sobre os tetos mais sombrios
E raptas corpos radiantes
Mal saídos de suas roupas:
Tuas asas nada poupam
Para a nudez sobre o Altar.
Tuas mãos lúcidas talham
Novos mármores de sonho
E deles novas estátuas
Plasmas nuas e radiantes.
Sobre a nudez dominada
Como em garupas cavalgas
E o Altar dança com os gritos
Que vêm dos subterrâneos
Mais castos do teu Castelo
Voltado contra as manhãs.

II

Com o teu Cálice saúdas o meu cálice
E perplexo me levas 
Pelo brilho de escadas
Que ora abaixas ora elevas
Sob as tuas espáduas.
Ó tu a que nada prende,
A não ser o acaso,
Por que me fazes presa
Do teu rapto?
Mas me doas tua audácia
E eis-me enfim arrebatado
Aonde nada é proibido
Nem também é perguntado
E ardo - ó Altar de delírios -
Nas chamas do Ignorado.
Em tem cálice o meu cálice
Emborca à Vida a dádiva,
E a Vida, em tuas grutas,
Mais profunda se encrava:
E Apolo fez-se a lâmpada
De Dionísio sobre o Altar.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Rapto das Noites ou o Sol como Medida

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