UM LEÃO EM SOL

I

Se em teu sol irrompes - o que fazer a vida
Senão dobrar-se à fúria de teu fogo?

De Leão essa luz a dançar sobre as sombras,
De Leão essa água, de Leão essa terra,
De Leão esse fogo, de Leão esse ar,
De Leão essa Esfinge em que a juba parece

Ir além dessas margens, ir além dessa calma,
Ir além dessa infeliz calmaria,
Ir além dessas vozes, em seu timbre de nada,
Ir além dessas mesas de doentes iguarias.

Ante a luz que vem Dele qualquer trama se esmaga
Ante a luz que vem Dele qualquer som silencia.
Qualquer som, qualquer sanha, qualquer vão movimento
De escapar-Lhe do salto, de fugir-Lhe das garras.

II

Um Leão sobre a fronte
Um Leão sobre a boca
Um Leão sobre as ondas:
Toda tempestade é pouca.

Um Leão que navega
Mais sobretudo que voa.
Ó juba que és toda entrega:
Jamais gesto que se escoa.

Um Leão que avassala
O ar num fôlego forte;
Que transforma a vida em jaula
Para nela driblar a morte.

Um Leão sempre um Leão
A caminhar sobre as águas
E que - em seu fogo - ar e terra
Engloba acima das mágoas

De ser Leão entre as fracas
Paredes de tédio e medo;
De ser Leão entre as sombras
Que alimentam seu degredo.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Rapto das Noites ou o Sol como Medida

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