VARIAÇÕES SOBRE A LOUCURA DE UM PRÍNCIPE

Minha febre te quer, ó sábia. Despe-te
De todas as roupas, principalmente as da alma,
Para colher o desmaio
De um príncipe cansado de um esplendor já morto.
Fica, também, febril. Cobre-me com tua febre.
Pois quem busca uma ânsia maior que as suas ânsias, 
Na certa está doente, e a sua cura
Depende de outra febre
Mais sábia e mais consciente do que a sua.
Tenho tudo de um príncipe,
Menos o fato mesmo de ser príncipe
E a posse real de um principado.
Mas tenho gostos, caprichos, tortuosidades,
Possíveis perversões como a ternura,
Que não domino, de proteger os frágeis
E os complicados, nas asas que não tenho.
Uma simpatia e, ao mesmo tempo,
Um grande horror pelo brilhante:
Uma vontade de beijar como se fosse agredir;
Uma raiva terrível de ser contestado
Mas igualmente, a capacidade de aceitar as piores agressões
Se vierem camufladas
Numa doçura, ainda que mentirosa.
Sim, adivinhaste, ó sábia.
Adoro a gentileza, mas não posso conceber
Nenhum príncipe sem algo de plebeu
Tal um pouco de lama em seu diamante.
Sim, ó sábia, ó mais astuciosa entre as mulheres,
Já não consigo imaginar nenhum principado
Fora dos limites dos teus braços.
Os sonhos de nobreza, sim, os sonhos de nobreza
Fiquem para o verso, pois nenhuma nobreza
Vale o sacrifício do Sonho.
E que teus olhos à vezes malignos,
Mas comumente benignos e doces,
Descrevam órbitas
Sobre os domínios do meu Sonho,
Para que eu possa ressuscitar, como as sementes
Geradas por teu silêncio enigmático,
Mais príncipe e mais novo.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Rapto das Noites ou o Sol como Medida

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