XII - A ESPONJA

Ela possui uma capacidade de registro e um poder de captação que ultrapassa até mesmo a eficiência dos radares. Traz em si, de modo aliás incontrolável, algo equivalente à onipresença com o dom ou a propriedade, é claro, de ser ubíqua. Pois ela pega não só o som, ou o traço, ou o movimento, mas os estados, as emoções, os tiques mais pessoais, que vão do jeito da pessoa sorrir ou conversar, até às suas formas de comportamento mais intransferíveis, ou as idéias inconscientes que latejam, muitas vezes, nos nossos socavões mais escondidos, sem que cheguemos sequer a pressenti-las.

É mais plástica que a "tábula rasa" de alguns filósofos, sobre a qual viessem a se imprimir, como em cera mais dútil, até mesmo os dados e contornos menos conformes ou mais disformes ou mais incompatíveis e contraditórios com o próprio ato exclusivo de cada alma ser. É a formidável equação de se ter mil rostos, sem ao mesmo tempo se ter nenhum. De se abrigar mil almas, sem que a própria ainda tenha nascido. Numa superposição de aparências - ora circunspecta, ora impulsiva, ora profunda, ora rasa - ela é enigmática como a estrada do nada ou um sempre adiado vir a ser.

O curioso é que nela não se crivam apenas os maneirismos, e sim até a base de onde eles surjam, como se de raízes soltas no ar se pudesse fazer crescer e erguer-se essa árvore extraordinária de mil faces, que fosse tão viva e alucinante que recolhesse até as possíveis máscaras através das quais a própria realidade anseia manter seu intratável, se bem que castíssimo pudor. Incomparável ilusionismo, esse que obscurece a própria ilusão. Fujam da Esponja, essa mais nova e imprevisível forma de não ser. Pois é justamente da Esponja que eu falo.

Não se sente sequer diante da Esponja, pois ela copiará a sua forma de sentar-se. Não lhe fale, pois ela, ao reproduzir sua própria voz, além de qualquer deformação, poderá deixá-lo órfão dela: da voz. E depois a Esponja pode se transformar, ainda por cima, numa espécie de sósia contrariado. Ela o induzirá, inclusive, a crer que você é que é ela. E que, portanto, ela, a Esponja, veio antes de você. Você, meu infeliz amigo, terá a dita de ser considerado o filho da Esponja. Depois da Esponja lhe sugar, lhe beber até às "fezes", como a uma pobre cana dessecada, ainda, por cúmulo, haverá de se voltar contra você.

Cuide-se: pois, fatalmente, a Esponja será sua inimiga. E chegará o momento em que já ninguém saberá distingui-lo da Esponja. Pois a genialidade dela o confundirá.

Evite o dia em que você se achar diante de um espelho, e não mais reconhecer a sua cara. Porque a cara que está lá não é a mais a sua. É da Esponja. A Esponja conseguiu, sem muita luta, tomá-la, e você simplesmente será um homem perdido. Não terá mais o mísero consolo de ver em seu espelho uma irredutível e imutável testemunha. Seu próprio espelho virá a desconhecê-lo. A Esponja acabou por voltar você contra você mesmo. Ela hoje pinta, canta, escreve, reza, poetiza, filosofa, e você se deixou fascinar, de maneira fatalmente inquietante, por essa considerável capacidade - privilégio supremo e indisputável da Esponja - de se adaptar aos mais diversos viveres, sonhares, pensares e soluçares.

Não deixe de observar que a Esponja pode ser falante ou silenciosa. Tema, sobretudo, a Esponja silenciosa. Nunca deixe, por princípio, que ela fale depois de você. Anote, em pensamento - e nunca por escrito - tudo que ela porventura se digne colher em seu falar. Mas não pense, mesmo em silêncio, dando a impressão de que esteja pensando. A Esponja vai e lhe rouba o seu pensar. Nunca pergunte nada à Esponja. A interrogação é um processo tão traiçoeiro, que a Esponja pode agarrar sua maneira de formulá-la, e continuar, de posse de algumas indicações colhidas no ar, miraculosamente por conta própria. Sob esse aspecto ela é mais eficiente que o mais engenhoso dos computadores. Em lugar de perguntar algo à Esponja, deixe que ela lhe pergunte primeiro. Naturalmente, por hábito ou por cálculo, ela não lhe perguntará nada. Mate-a, então, de silêncio - do silêncio mais compacto - que a partir daí a Esponja lhe deixará em paz. Antes disso você estará com ela num perigosíssimo jogo. E sairá seguramente perdendo quando chegar ao fim.

Mas não permita que o fim chegue antes. Antecipe-se ao fim. Lembre-se que a Esponja é, sobretudo, uma coisa atenta. Seja, por conseguinte, mais atento do que ela. Fuja de tal dominação diabólica, se não quiser finalmente ser substituído pela Esponja. Isso, porém, não significará que você deva lutar com esse poderosíssimo demônio. Volte-lhe as costas enquanto é tempo, antes que essa onipotente rival saia espalhando que foi ela que saiu ganhando o jogo. Pois, num combate com a esponja, mesmo os melhores terminarão perdendo.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Ignorado

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