VIII

Ouvindo-se as cantigas antigas de ninar é que se percebe - com essa melancolia que não mais se sustenta em raízes, que vem das origens com as quais já não temos nenhuma afinidade - o quanto a qualidade do homem foi alterada e degradada. Deve ser diferente uma humanidade que recebeu a música ao pé do berço - como se a cultura se tratasse de algo que ia se formando logo nos ouvidos da infância - de outra que já nasceu banida do cantar materno e da realização existencial dos arquétipos mais simples e elementares como o Pai, a Mãe, o Irmão, a Criança, o Jovem, o Velho e, acima de tudo, o reino da Família, em seu poder originário e criador das excelências da espécie.

O homem que viu sua infância florescer ao som de berceuses, e aquele cujos ouvidos só conheceram os grunhidos de uma sociedade em decomposição, em que poderão se igualar?

E, entretanto, ainda se fala do homem, porém não se sabe mais o que ele é. Os antigos povos e as idades áureas não chegaram nunca a duvidar da simplicidade de sua existência. Embora não se achassem primitivos. Mas não são os saudosistas - cultores do pó, da cinza e da ruína - que irão apontar o caminho do regresso à origem. Os saudosistas pertencem apenas ao passado. Nem serão as mariposas do momento, que gravitam ante as luzes vazias dos postes iluminados de slogans, que hão de merecer nossa atenção mais régia. Acredito, apesar de tudo, que ainda possam existir homens. E tal crença fortifica-me na idéia de que a Vida conhecerá uma ressurreição. Precisamente porque suas fontes estão mortas. E a podridão carcomeu quase todos os lábios.

Os homens que, em pequenos, foram embalados com o canto materno - quando as Mães encaravam o ato de gerar e de fazer crescer como uma vocação sagrada - em grandes não se deixavam atemorizar pelo rumor das batalhas. Porque eles sabiam que, assim como o Amor, a Paz era uma conquista. Pois, contra a paz podre, nada mais santo e redentor do que a guerra. Contra o amor podre nada mais rutilante que o brilho de uma espada vingadora. E quando não só o amor e a paz estão podres, mas também a própria guerra?

Anuncie-se, então, a purificação de uma hecatombe. Quando a Fé é um dom que se tornou impossível de ser apreendido, por causa do tumulto das falsificações e das degradações de turvos tempos, a espada possui a força de iluminar os homens ainda mais poderosamente que uma estrela. O seu brilho estonteante, ao querer tombar sobre as cabeças dos que se desvirilizaram por ausência de uma razão para crer, pode, de maneira fulminante, como a a mais luminosa das intuições - e com o raio do seu fascínio celeste - despertar-lhes de vez a mais inexistente fé. E a Fé será, então, o brilho de uma espada sobre aqueles que se recusam a morrer.

Não devem ser mortos, nem torturados por qualquer forma, os inimigos da restauração do Reino. Tornemo-los gladiadores para que, lutando honradamente, se destruam entre si. Sua mútua destruição será a honra que não tiveram.

Mas se se deve aconselhar alguma tortura contra tais inimigos, que esta seja uma delicada pena de cisne, ou de outra qualquer ave bonançosa, que, com a maciez de sua penugem sobre os seus traseiros, fazendo-os se contorcer, os deixe morrer de rir. O seu riso será a alegria que não souberam cultivar.

Antes a era da criação; hoje a da criatividade. Aos gênios sucederam os contorcionistas e os macacos. E ainda há quem pregue igualitarismos torpes para envilecer os homens além do que já foi dado conseguir.

Talvez não possa haver mais homens, por que um falso e débil amor os matou. Os olímpicos foram substituídos por pretensos olímpicos. E eu tenho o direito de ao futebol preferir a luta de gladiadores. Preferir o som de mil tambores guerreiros, a procissão divina dos archotes, e estandartes mais altos que o deserto, a convocarem para a ressurreição do Homem e a restauração do Reino.

Há homens que vivem no medíocre como na mais plena das beatitudes. Eu não sou um desses homens. Anuncio que vislumbro outro mundo - um mundo de lutas gloriosas e, por isso, de poesia e de música - que seja o extremo oposto do uivar sem esperança daqueles que renunciaram à saída por qualquer porta.

Acima das condescendências da civilização ainda nos resta uma suprema possibilidade: a de fazer criar uma futura dinastia de sábios, e, portanto, de reis.

"Já não é tempo de reis: o que hoje se chama povo já não merece rei", proclamou Nietzsche.

Eu, porém, proclamo: Crie-se, contra a falsa história e, principalmente, contra o falso homem por ela gerado, um tempo digno sobretudo de reis.

E, porque reis, sábios.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Ignorado

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