VII

A volta à origem. De onde tudo permanece vindo. Como no princípio das histórias de fadas: Era um vez. Onde o era, mais do que lembrança, se torna recapitulação do ser. Assim também o fim das histórias de fadas: E foi ou foram felizes durante muitos e muitos anos. Onde o foi ou foram, mais do que conclusão, é remate do eterno, é felicidade que não conhece duração, é corolário da busca ou do começo. Depois do era uma vez, um foi que persistirá sendo o desdobramento do aceno em que tudo começou ou era.

Tríplice é a leitura: linear, inter-linear e abissal. A última desce às águas. Submerge. Batiza-se. Perde-se na densidade uterina das profundidades, com a qual se identificam sangue e espírito, para de lá trazer o anel ou a lâmpada. O anel como reencontro com a indissolúvel pureza. A volta ao que há em nós de intangível. O retorno ao que sempre permanece. O círculo da origem. De onde viemos e para onde haveremos de voltar. Como nas histórias de fadas. Como na Poesia. Como nos Evangelhos. E a lâmpada como vigília do olhar que vê. Como a sabedoria que persevera. Como a luz tensa que jamais se apaga. Entre os confins da vida e da morte.

Cada época tem sua astúcia. Mas além da astúcia está o lago. O lago em que o Patinho Feio se reencontrou, segundo Andersen. E onde Narciso se perdeu, segundo o mito grego. Cada época precisa ir além de Narciso. Recolher, em meio ao caos que sempre houve, os paradigmas eternos. A arte, emergindo da vida, deve ser por isso paradigmática: não pode abandonar os arquétipos. Deve também ser normativa: ensinar ao homem a sua redescoberta. Fazê-lo voltar às nascentes do ser, como na sentença socrática: "Conhece-te a ti mesmo". Toda arte verdadeira será como as histórias de fadas e os Evangelhos: pedagógica. Em sua pedagogia, a arte fará o homem enfrentar-se com o escuro, perder-se nele antes de vir à tona para a vida. E transmitir aos outros uma lição de mistério.

É necessário reintegrar a arte no domínio do mito. Não há propriamente diferença entre arte e mito. Arte é mito. Por que não uma estética do mito?

Aristóteles, na "Poética"... "é manifesto que a missão do poeta consiste em fabricar mais fábulas (mitos) do que versos".

Platão no "Fedro": "O poeta se o quiser ser, terá que formar mitos e não discursos".

A arte, mais do que técnica, é uma astúcia armada contra a opacidade do mundo. Artista será aquele que tornar o mundo mais escuro ou mais luminoso. Mais escuro quando o artista aprofunda o Mal e o Feio, como forma de esconjurá-los pelo excesso de sua representação. Mais luminoso quando ele tenta fazer da arte uma luz dominadora que se contraponha, em sua ofuscação, às imagens do real. No primeiro caso, o real parece se confundir ou se degradar ou se flagelar a si mesmo. No segundo caso, o real parece negar-se, enquanto real, para que se ultrapasse em sua condição. A arte será sempre uma cavalo de Tróia.

E o papel do ódio na Vida como na Arte? É o de diferenciar o próprio amor. Quando o ódio é poderoso torna-se divino. E com ele se criam e se caldeiam os personagens da grande tragédia. O ódio, muitas vezes, é uma advertência contra a excessiva comodidade em que se abrigam os devotos de uma indiferenciada semelhança. O ódio é o espelho oposto. Ou a contra-face. Ou o contra-espelho. Se tudo é igual, a diferença perece. O contrário é filho do semelhante. Toda arte é uma grande vingança.

Ninguém nasce para repetir. A mímesis de Aristóteles, assim como a reprodução dos arquétipos da estética de Platão, não procuram repetir o mundo. Procuram antes recolher os dois âmbitos em que se recorta o real: proteger o primeiro, a finitude, para que ela se expanda e para que a ação do verbo sacuda a imobilidade do criado (mímesis da ação); negar, o segundo, o conhecido, para que o desconhecido seja recapitulado (aproximação com os modelos ideais). A arte é o choque entre o cognoscível e o incognoscível. Ou a junção do finito e do infinito. De um lado, Aristóteles e Cervantes. De outro, Platão e Proust. No centro Dante e a linhagem dos três princípios e dos três reinos.

A função da arte é repetir Deus.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Ignorado

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