VI

É preciso se estar preparado para o encontro misterioso. É preciso se estar atento e, além de atento, disponível para aceitá-lo e compreendê-lo; e, para além mesmo da atenção e da disponibilidade, há que se ter, sobretudo, uma intuição poderosa das origens. E de saber que o mistério não começa além deste mundo. De que ele muitas vezes é o mais próximo de nós.

A Irmã dirá, então, ao Irmão: Tocaste em minha origem. Eu te procurava há muito, e finalmente te encontrei. O Irmão responderá à Irmã: Graças te dou por teres guardado tuas raízes e, dessa forma, me encontrado. Dirá em resposta a Irmã: Ainda sem me dares a metade do teu reino, eu te aceitarei como meu rei. Responderá o Irmão: Dar-te-ei a metade do meu reino, isto é, da minha vida, se protegeres a minha cabeça para que eu te proteja o coração e te constitua como rainha. Serei Assuero, e tu serás Ester, depois de Vasti, a orgulhosa, haver sido destronada. Nenhum trono pode ser abalado sob pena de o próprio reino se dividir contra si mesmo e do seu rei perder o poder do seu cetro e a condução do destino da sua rainha e, portanto, do próprio coração do seu reino do qual ele, o rei, será necessariamente a cabeça.

Ninguém achará sua rainha sem que seja, antes de tudo, rei. Quem passa adormecido diante de sua rainha, sem a descobrir, ou descobrindo-a, não a reconhece, perdeu-se a si mesmo. Porém se, ao descobri-la, reconhecê-la e, reconhecendo-a, a coroar, terá seu reino multiplicado e a sua coroa tão luzente como no templo das origens.

O anel que o rei dará à sua rainha, em sinal de honra, representará, por isso, o retomar das origens; a reintegração cósmica no círculo, sempre movente, da Realidade; a identidade que ele se deu a si mesmo ao reconhecer aquela que, gêmea de sua alma, recebeu o anel do seu próprio regresso ao tempo que permaneceu incólume na vigília. Quem não guarda a chama de sua alma prepara-se para a segunda morte. Quem não foi traspassado pela Estrela dos Magos, será precipitado no vazio. Quem não preservar o anel da fidelidade perderá, em seu desencontro, o sentido total de sua vida.

Nada mais longo, nem mais difícil, que o encontro entre o Irmão e a Irmã. Poderá durar séculos. É mister, na maioria das vezes, viver muitíssimas vidas. Morrer e renascer de novo. Assumir corpos os mais diversos, faces as mais complexas, destinos os mais desencontrados, em meio ao turbilhão dos dias e das noites, das vidas e das mortes, dos invernos e dos verões, para finalmente achar o corpo que procurou em vão em outros corpos, a face que procurou em vão em outras faces, a alma que procurou em vão em outras almas.

Mas pergunta-se: O Irmão e a Irmã porventura depois disso acharão repouso? Contentar-se-ão apenas com a maravilhosa beleza do terem se reencontrado? Ou, pelo contrário, espalharão tochas pelo caminho para que delas venha a ser gerada a estrela de um futuro maior?

É ao mesmo tempo fácil e difícil o grande Amor. Fácil porque ele se reconhece logo. Embora difícil seja o caminho para se chegar a ele. Sem pureza jamais se poderá ter dele uma visão, e sim apenas uma miragem: porque de miragens é que se povoam os desertos, mais do que de oásis. E há oásis que raros peregrinos vislumbrarão. Os que, por acaso, os vislumbrarem, esses serão servos da vigília e por isso - porque portadores do fogo sagrado - senhores do deserto.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Ignorado

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