IV

Ai esse dizer, fundamentalmente ambíguo, que nos revela o duplo destino das forças que nos comandam a vida: o amor e o ódio. Duplo destino porque, inseparáveis quase sempre - o ódio contido no amor e o amor contido no ódio - só a muito custo se libertam dessa convivência dilacerada e dilaceradora para que cada um realize, em plenitude, a própria destinação. O amor então se revela como amor. E o ódio como ódio. Em toda inteireza. Em toda a sua explosão de dádiva - se for amor. E se for o ódio - em todo o seu poder de rejeição.

E é nela, nessa mão, que se traçam os meandros sombrios e luminosos dessa dupla presença a unir ou a separar os homens? Será o reino do amor o reino da união? União que tudo engloba, nada rejeita, mas que, nos amparando da dor, do mal e da nossa irredutível fragilidade, transforma-nos ao mesmo tempo que nos mantém fiéis à nossa maneira especial de ser? O amor, ao nos ajudar a ser mais o que sempre fomos, aprofunda-nos na direção mais misteriosa e mais preservada de nosso próprio caminho? Penetra em selvas e, sem medo, desce aos mais entranhados subterrâneos? Atravessa os infernos antes de ir em demanda da Luz? Amor que não desce aos infernos ainda pode ser chamado de amor? Ai, Ele ultrapassa as sendas mais tortuosas e desencontradas para finalmente atingir o Outro. Ele será sempre a busca de um horizonte que voa. Não é apenas anjo apaziguador: mas insaciável verdugo de si mesmo. O verdadeiro amor sofre por não poder ser mais. Não se cumpre parando ou estagnando, e sim avançando, exortando, convertendo, ralhando e mesmo esbofeteando uma face para despertá-la e levá-la a fitar a luz. Luz que não se detém e, em todos os ângulos, procura ferir as sombras e dissipá-las.

Inquisidor eterno é o mesmo amor. Ao tempo em que interroga os olhos do Ser, que se abrem perplexos e confundidos diante dele, sua mão lhe passeia a carne, se aproximando ou recuando como um pássaro infatigável. Sua mão que não se esgota no dar, transforma tudo o que toca em dádiva. Ela é inquieta, balbuciante, dançarina, esgrimista e toureadora. Porque adivinhadora, a mão do amor é cada vez mais sedenta por adivinhar. E, apesar de constante adivinhadora, ela se debate continuamente entre dois polos: ela é toda confiança e toda dúvida, a mão do amor. A confiança, por maior que seja, é sempre pouca para o seu ofício. E a dúvida, por mais ameaçadora, apenas lhe distende as veias para a permanente recapitulação do encontro. Unir para encontrar, ou perder para descobrir, é o seu encanto e a sua missão. Toda luz é insuficiente para o seu desejo de claridade. E a menor treva faz tremê-la e inquietá-la. Ela é valente e temerosa ao mesmo tempo. Ela espera e desespera sem cessar, a mão do amor.

Dificilmente se vê entendida. Quase sempre rejeitada, algumas vezes acolhida, ela é bênção e ameaça, perdão e vingança. O amor, gêmeo como é do ódio, tem em comum com o irmão o ímpeto e a violência; e, ao não se ver cumprido, sua mão se volta em maldição sobre a cabeça daqueles que ela abençoou. O amor não cumprido quase sempre é praga. E a praga é uma bênção invertida. Assim como o Demônio é uma inversão do Anjo. E o Mal uma inversão do Bem.

É santa a mão que crê e sustenta a outra que sucumbe na dúvida. Mas também é santa a mão que duvida, pois esta, talvez mais do que a outra, deseja crer. É santa a mão que aceita, mas também é santa aquela que rejeita. Porque quem rejeita, quer receber de novo. E sendo, acima de tudo, vidente, para além dos muros da vigília, a mão do amor não dorme.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Ignorado

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