II

Os meus pais não são os meus pais, nem os meus irmãos são os meus irmãos. Os meus pais são o Desígnio que me comanda e a Vida perseverante que me sustenta os passos em demanda de Mim mesmo. Os meus irmãos e minha irmã ainda estão para nascer. Eu mesmo ainda não surgi de todo.

Minha morada só prosperará sob as mãos do Carinho invisível ao olhar dos fracos e visível aos que fizeram do seu destino sua própria força e o seu olhar um instrumento de preservação da pureza da Vida. Minha morada só acolherá os que mantiverem o voto de ser puros consigo mesmos, confiantes, determinados e corajosos nos seus propósitos de criar como de destruir. Os fracos não suportarão habitarem dentro dela. Eles se matariam ou seriam mortos. Assim é a Lei.

Estou preparado para receber o Amigo. O Amigo será aquele que conseguir manter a chama de sua promessa sem se quebrantar e sem mostrar-se fraco. Quem for capaz de manter a promessa será o Amigo. O Amigo se manterá vigilante, de olhos claros para as armadilhas, terá perfeitos ouvidos, jamais cairá na degradação de perder sua gentileza em ouvir, em perseverar, em compreender, em admoestar, será inquisidor permanente de tudo e me confirmará na Promessa. O Amigo sustentará minha mão para impedir minha fraqueza: porque para o Amigo a pior coisa será explorar o que houver de fraco em minha natureza ou me conservar fraco para, dessa forma, me destruir.

O calor da mão do Amigo, a sua presença, a chama do seu olhar, o sal de sua palavra, o fogo do seu coração, me conservarão vivo. E a Vida só valerá se mantiver sua dignidade. Só os fracos conseguem viver sem dignidade. Existe uma lei: a da adivinhação, a da santa máfia, a do divino Cangaço, a da tabela sem cálculo, instantânea, tácita, instauradora e ordenadora. Quem não for puro, duro e íntegro, deverá ser destruído. Assim dirá o Amigo. O Amigo não recuará diante de nada. Ele é vigário de Deus. E eu o serei também para ele. Se eu não for alto, tenso, direto, determinante, ele deverá me destruir. Porque nenhum fraco deve viver. O fraco difama e macula a vida. E a Vida, a nossa divina Mãe, é imaculada e permanecerá imaculada.

Se ninguém encarna Deus, Deus não poderá existir, e a ausência de seu fogo nos destruirá. A resplandescência da Divindade habitará aquele que não recusar a ser Homem. Porque Deus é o Homem. O Homem, o verdadeiro Homem, se fez Deus. E dirá, então, o Amigo: o amor de Mim mesmo me consumirá. E Eu serei também consumido.

A Graça existe. Mas poucos merecerão a Graça. Os que se revoltarem de ser fracos atingirão a Força, e a Graça os atingirá. Os que acharem bela a fraqueza, esses serão esmagados. Porque pecaram contra o Espírito da Verdade. A própria Vida os triturará. E o prazer dos fortes será vê-los triturados. A Lei será tão inflexível quanto a Graça. Porque toda injustiça não passará de traição.

Eu permanecerei e serei infalível. Quem não tiver o dom da infalibilidade é um adepto da fraqueza. E os dias do fraco já estão contados. Como no banquete de Baltazar.

Nietzsche falava do sentido da Terra. Porque ele sabia: que o sentido da Terra é o sentido do Céu. Porque ele sabia: que quem não tivesse o sentido da Terra, não poderia ter olhos puros para o Céu. Porque ele sabia: que a Terra é vertical, além de horizontal, e o Céu seria o vértice e o horizonte da Terra. Porque ele sabia: que seria preciso olhar firme para o abaixo, para atingir o acima. Porque ele sabia: que a Trindade Santíssima está impressa no sexo do Homem e no sexo da Mulher. Porque ele sabia: que a Mãe Terra e o Pai Sol se reconciliarão sob a mesma Água, em que o Espírito pairou, e em que fluimos em demanda do Alto que está em baixo refletido. Porque o Alto está em baixo. E se não olhássemos primeiro o abaixo, jamais atingiríamos o acima.

Se ouvirdes algum fraco falar no sentido do Céu, desconfiai: será uma forma dele negar ou trair o sentido da Terra. Eles, os fracos, não sabem querer, não sabem desejar, não sabem possuir, não conseguem ser fiéis ao seu querer, ao desejar, ao possuir. E por isso apontam para o Céu, porque não o trazem dentro de si. Porque dentro de si mesmos são baixos e, por isso, para enganar-nos, apelam para as alturas. Que tais alturas caiam sobre as suas cabeças e acabem por esmagá-los.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Ignorado

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