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Movimenta-se tanto, que nunca conseguimos lhe ver o rosto: assim dizem do meu duende. São tantos os braços, tantas as pernas, nesse duende infatigável, e a sua mímica é tão turbilhonante, que cada vez mais difícil se torna para os outros captar-lhe a verdadeira feição. Essa capacidade dele se fazer como que invisível, não será uma forma de escapar ser um dia redutível a qualquer padrão? Por isso ele parece sempre estar engolido por uma vertigem que o faz se desprender perpetuamente dos curiosos e volúveis olhares dos seus cansativos espectadores.

Os muitos braços e as muitas pernas da visão de Chrishna, que fizeram Arjuna desmaiar de pavor, se transpostos para a visão do meu duende, se prestariam magnificamente para uma analogia singular com ele: porque é o seu rosto que se faz incapturável à medida que os espectadores, desejosos de nele se fixar, nunca logram desemaranhar-se da teia dos seus gestos vertiginosos e jamais repetidos. Como, então, recompor sua feição? Como então, colocá-la numa moldura e dizer: eis o seu retrato definitivo? Como e quando?

E, entretanto, ele, o meu duende, não se cansa de ensaiar o mesmo número, embora os espectadores possam pensar que se trate de um número novo para a gula dos seus olhos. Enredados que estão pela multidão de gestos do meu duende, como conseguirão prender-lhe o rosto em seus olhos alguma vez? O seu rosto sempre estará fugindo. E os olhos dos espectadores estarão continuamente longe de aprisioná-lo.

Sabe-se tragediante e comediante o meu duende. Na tragédia de não poder mudar o jogo espúrio das coisas, e na comédia, constantemente renovada, com as mesmas cenas e os mesmos personagens, de ter de rir à força como último remédio, ele contempla o circo do seu país e o circo do mundo: com seus palhaços fatigados, com seus acrobatas enganadores, com suas feras domesticadas, não mais por domadores, mas por um tédio que hoje parece dominar até os animais.

Se o circo é a nossa única esperança, o que fazer da esperança? E se os palhaços já se cansaram de uma platéia resignada às mesmas graças de que eles já se sentem saturados, que fazer com o próprio circo?

Que restará, por fim, ao meu duende senão esconder-se cada vez mais, num movimento que venha a tornar também mais mutável a sua fisionomia, a ponto de esquecer-se - suprema mistificação - que é dono do mesmo rosto para um dia confundir totalmente essa indistinta multidão de olhos que o perseguem, sem poder, ainda forçadamente, resolver-lhe o enigma?

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Ignorado

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