EXPECTAÇÃO No.10

O Senhor banhou-se nos olhos de sua Serva
como num verde bálsamo.
O Senhor voltou à mais remota infância
nos olhos de sua Serva.
A sua vida pregressa foi anulada
e ele renasceu mais jovem e mais brilhante,
do contacto das águas que emanavam
dos olhos de sua Serva.
E ele viu nos seus olhos a passagem
por muito tempo vedada para o templo
onde oficiara, de manto e de tiara,
ao lado de sua Serva.
Voltou a respirar os incensos perdidos
que a pureza envolviam dos contornos lunares
da face de sua Serva.
Ele, então, devolveu-lhe a capa
que dela haviam arrancado pelos átrios
do templo profanado,
enquanto ela devolveu-lhe a armadura
que ele trazia sob o manto antes dourado.
Ele voltou a juntar as mãos de sua Serva
para que saudassem o sol das hóstias renascidas
e para que o antigo júbilo enterrado
em seu coração - campa severa -
despertasse sob os sinos
que anunciavam a volta do mistério.
Os pássaros dançaram-lhe em torno
das ramas alouradas do cabelo
estendido, como um véu de ouro,
sobre os ombros de sua Serva.
E porque a luz não deixa o anjo nem sobre o vale escuro
onde todas as palavras se perderam,
a Serva que é infante, musa e dançarina,
de luz rasgou o câncer que enredava
o destino do Senhor,
como a Absalão suspenso dos cabelos.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Inquisidor

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