EXPECTAÇÃO No.9

O radical do ser, o radical do amor, o radical da morte:
a dança trina das raízes aos pés do altar que é sumo
da Vida poderosa.

A mesma voz anima
a força do Senhor e a fraqueza da Serva.

A mesma voz divide, para que depois se unam,
a carne boa e mansa e o punhal que a dilacera.

Gozar e rezar é a mesma coisa:
e tanto faz a palavra recitada
como a Serva sacrificada
e o Senhor violando a sua Serva.

Ó Vida, deixa que te sangrem,
deixa que te façam sucumbir
na agonia do gozo e no gozo da agonia.

Entrega-te, ó vida, a esse Deus que sangra:
é preciso sangrares para que vivas, e te abras, ampla
rosa fundida ao sol da Criação,
e dilacerada sob o punhal da Morte.

E, depois, na comunhão dos sangues,
além de vida e morte, hão de encontrar-se
o que foi criação e foi destruição;
o trabalho das mãos e o trabalho dos pés;
o conquistador e a presa;
o sacrificador e o sacrificado.

Para que goze o que conquista
e a presa conquistada;
para que goze o que se entrega
e aquele que cavalga;
para que goze a vítima com a sanha do Senhor
e para que goze o Senhor debatendo-se em sua vítima
agora e para sempre.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Inquisidor

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