EXPECTAÇÃO No.8

Amargo gastar o hálito em construções de vento
e planar no vazio à falta de outro céu.
E, contra a negação, ainda elevar preces
a deidades sem fogo, às quais mesmo sem fé
se buscou cultuar: e, depois, nos altares repletos
não ver mais que a ausência povoando o nada.
E entre hinos sucumbidos e tambores já surdos
gravar sobre bandeiras os seus brasões sem fé.
Partir para o sublime percebendo que ele
não foi mais do que o anseio em nós mesmos gerado
e em nós mesmos perdido.
Não mais erguer os olhos às alturas
mas descobrir claridades subterrâneas 
aqui mesmo, das pedras.
E, desprezando aqueles para quem a liberdade
é circular sua canga, nos limites previstos,
inventar guardiãs de um mistério suspeito
para o sustento de uma fé mais enferma que a vida.
Finalmente enjaulado rugir entre as paredes
um grito que nem nelas se ouvirá.

Ó volutas de pureza num hálito encerradas,
a se evolarem antes de formar contorno.
Ó pobres palavras púrpuras e escravas
em seu próprio rubor despetaladas.
Ó fantasmas queridos e por nós inventados,
que após se fizeram autônomas visões,
mantendo os nossos olhos condenados.
Ó Deus-fêmea para quem a oração é um dardo
a perfurar-lhe as entranhas, nem sempre luminosas:
como sepultar nelas os fantasmas
que inventamos para lesar a morte
mas, depois, mais vivos do que a ânsia
que os gerou, em seu cerco de chumbo nos detêm?

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Inquisidor

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