EXPECTAÇÃO No.6

      Para Kadidja

Dá que eu seja pobre de tua Pobreza,
dá que eu seja casto de tua Castidade,
dá que eu seja obediente de tua Obediência,
para que eu recite, surata por surata,
a mensagem de Gabriel à tua Serva.
Sou teu recitador
que não quer das palavras só a sua melodia,
mas seu fogo.
Que não quer ser só tocado por tua Presença,
mas incendiado.
E como afinal me fizeste para o Incêndio
faz, Senhor, que eu não seja incendiado sozinho.
Porque não desejo deter meu êxtase
mas: cada vez mais
juntar o meu sangue com o sangue da tua Serva.
O anjo que me mandaste quase me estrangulou,
e como o bem pode assumir, às vezes,
as aparências do mal,
eu não sabia mais se era anjo ou se demônio.
Mas assim que tua Serva ficou nua
o anjo pacificou-se, sem a tocar.
E intocada a deixou em minhas mãos
para que a sua virgindade, sempre eterna,
me salvasse.
E não fora tua Serva, eu não saberia jamais
se de fato me terias enviado o teu Anjo.
Permite, então, Senhor, que tua Serva
me ensine o caminho da verdadeira nudez.
Permite que a nudez do seu corpo
com palavras do teu Reino meu coração desperte.
Pois através do seu corpo que se despe
poderei entender a Tua Voz quando fala.
Pois corpo e alma nela se fundiram
para salvar teu servo das garras do Demônio.
E só através da nudez sagrada do seu corpo
- intocado pelos próprios anjos -
eu poderei espalhar, como um sol sobre Meca,
a nudez mais sagrada do teu Nome.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Inquisidor

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