EXPECTAÇÃO No.1

Não só compreendidos mas adivinhados
quero que sejam os ventos de minha alma.
Assim me disse a Voz por trás das portas
que se fechavam sobre o meu destino,
quando eram movediços todos os caminhos da Terra
e a minha paciência era já uma forma de crueldade
perante a agressão inocente, e não calculada, das coisas.

Eu era um pobre pontífice de tiara desgastada
cuja bênção apodrecia
em mãos que já não sabiam abençoar.

O cansaço era a única atmosfera
em que o meu corpo e a minha alma jaziam.
E eu não sabia o que fazer desse cansaço
até que me sobreveio um abalo
e a Voz me falou, clamando no seu fogo enigmático,
debatendo-se em meus ossos e animando minha esperança
que eu não sabia se existisse mais.

Eu não tinha mais que uma oferta de cinzas
no coração carbonizado:
mas minha falsa vida, sob o seu Hálito,
viu destruídos os laços protetores
que ainda me prendiam aos antigos enganos
e às trêmulas aparências
da face em que deixei de acreditar.

Louvada seja a Voz no seu esforço
de nos fazer escravos dos seus dons.
Pois submissos servos nossos corpos
aspiram no seu fogo ser aniquilados.

A Voz que tem domínio sobre as portas
e habita a inviolada região dos selos:
e pela luz dos seus signos submete
as mais cansadas sendas e bandeiras.

Daí que seja vil qualquer esforço
fora do movimento
impresso pela Voz em nossos corpos.
O maior sentimento é um movimento
do seu querer em nós, impresso e dado.

Se não formos submissos ao seu apelo de chamas
e não quisermos ser por elas incendiados,
seremos podres jazigos, sem a graça da morte,
pois só depois de perdidos somos salvos.
(Se é que alguém um dia já foi salvo).

De qualquer modo nos perderemos,
pois todo caminho leva à perdição.
O próprio caminho se perde quando achado,
e ai de quem se perde muito tarde.

A Voz me revelou essas coisas
pondo em meus ouvidos o beijo da promessa
de que as palavras - feras provocadas -
seu destino de feras cumprirão,
e poderão nos levar a não sei quantas milhas
dos ventos terrestres
ao coração perturbado dos outros mafiosos de Deus.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Inquisidor

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