VIGÉSIMO TEMA SEM JÚBILO

Galo sacrificado, à luz dos cânticos,
despojado das penas sobre o altar,
por que mantém-se ereto após a morte?

E por que se reclina em nosso peito
como a pedir-nos, da palavra à míngua,
que se lhe tire o peso ao bico inerme?

E já desfeito o selo que vedava
a porta curva e pálida do bico,
por que nos pôde ser servido o Galo?

Que verdade teria, única e forte,
o Galo que, ante o olhar do Sacerdote,
só se desse depois de adivinhado?

No clamor sem palavras, que palavra,
em sua concha, a essência jamais dita,
pôde em nós espargir, que nos tocasse?

E ao Sacrificador o que comove
mais no Galo senão, além da morte,
essa necessidade da palavra?

Libertada a palavra, o sacrifício
da vítima cumpriu-se à própria vítima
que, sobre as chamas, proferiu-se Galo?

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Inquisidor

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