DÉCIMO QUARTO TEMA SEM JÚBILO

A mulher sob o véu, que velará,
se o sorriso não mostra, e se a palavra
mais aprofunda a intriga do velado?

Em que bosques se escondem os juramentos
dos lábios que armam doces armadilhas
à luz do que, falando, obscurecem?

Que altares desmoronam sob a prece
dessa que alteando a boca em profecia,
mais mente tendo-a grave que sorrindo?

Não mente por secreta resistência,
a mulher que temendo morto o véu,
aos que tentam rompê-lo alonga-o mais?

Por isso, fio por fio, o véu mais cresce,
e branco, o seu brancor confunde os olhos
que vão subindo nele para as nuvens?

Mas os olhos que mudam se fitados
da mulher sob o véu, que velarão
pelos crivos de um véu que mais se adensa?

Por que, por ser olhada, perturbou-se:
e seu rosto nos foge, além dos crivos
do véu que se desvela às mãos da noite?

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Inquisidor

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