NONO TEMA SEM JÚBILO

- I -

Como, habitando o Inferno, à luz que há nelea
render-se, e nalgum templo resguardado,a
velar, tremente, a solidão de um círio?

Se da agonia e júbilo de um anjo,a
também faz-se um demônio, que é um demônioa
entre os anjos senão o anjo lesado?

Que fazer dele, então: acorrentá-lo,a
ou invertê-lo em anjo? E dos avessosa
do céu como gerar mais belo inferno?

- II -

Como, o Céu habitando, o hálito negroa
do demônio penetra nas narinasa
de um anjo revestido pela Luz?

Se armado está da Luz, por que inquietar-sea
o anjo que se sabe vitoriosoa
de qualquer diabólico contágio?

Que vitória a do anjo que não dormea
das perpétuas ciladas do inimigo,a
se tem o Céu por pouso às suas asas?

- III -

Mas, Castelo solene sobre as casas,a
com seus véus, candelabros e duendes,a
por que se elevam as torres em ameaça?

Por que das investidas não se cansaa
o demônio, se é frágil? Se o podera
jamais lhe pertenceu, por que não pára?

Se o silêncio dos anjos se conturba
às fúrias do demônio, está nas chamasa
das torres infernais maior Império?

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Inquisidor

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