TERCEIRO TEMA SEM JÚBILO

- I -

Em que cálice virgem o sal das ânsias
se irá depositar? Como, em suas bordas,
as agônicas sedes esquecer?

Os lábios se consomem noutros lábios
ou, em beijar, se esquecem? A mútua flama,
como evitar que incerta empalideça?

Como amparar-se porque não se apague,
senão que queime e sofra em seu durar,
enquanto durem os lábios que a contêm?

- II -

Sob os voláteis vínculos da noite,
mais que os do dia em nós: em seus oásis,
que deus cruzou de amor os nossos cílios?

Por que se perde o sangue na espessura
da noite de outro sangue? Em que nascentes
dormirá este sol vedado ao medo?

Como ocultar as faces confundidas
pelo móvel esplendor da própria sombra,
para salvar dos oásis nossos olhos?

- III -

A mansidão da esfinge, incaptada,
te é crueldade ou dor? (Ó mansa esfinge,
quem te responderá sem ter-te amado?)

Não obriga ou impede que a violes:
e a entendes se se dobra às vezes terna
e, outras vezes, áspera se dobra?

Por que temer que o teu cristal se quebre,
se o júbilo talvez seja essa febre
de não saberes bem o que ela quer?

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Inquisidor

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