Gilberto Freire e a Modernidade como continuidade criadora

Partilhando a concepção nietzschiana da cultura como transformação, ou até mesmo como deformação do legado recebido, e não sua reprodução automática, como, de maneira impressiva, ele enfatiza em Região e tradição, Gilberto Freyre, em sua interpretação do Brasil, no duplo enfoque sociológico e antropológico — sob o prisma de uma rica e finíssima psicologia, geralmente de conteúdo simbólico —, faz uma leitura integrada de vários aspectos de nossa formação, apontando para uma galáxia de valores que, assimilados organicamente, a partir de nossas próprias diferenças, nos levariam a uma singular excelência face ao conjunto da comunidade ibero-americana.

O que é admirável no pensamento de Gilberto Freyre é a superioridade que o distingue quer do simplismo de certas sínteses improvisadas, quer de certos radicalismos direcionados ideologicamente. E o seu Movimento Regionalista e Tradicionalista, segundo ele, com valores mais modernos que “modernistas” em comparação com o modernismo do eixo Rio-São Paulo — com o qual não deixou de manter um certo diálogo —, é um dos melhores exemplos dessa posição ímpar: o seu regionalismo nunca implicou num fechamento com outras regiões, mas antes, pelo contrário, numa abertura ao universal, também seu tradicionalismo jamais entraria em conflito com as renovações necessárias a todo grande projeto cultural. Ou seja: à sua própria visão de modernidade.

E é justamente em sintonia com uma ideia de participação de todos os sentidos na fruição da arte e nos contatos dela com a realidade que Gilberto Freyre se nos mostra em Vida, forma e cor, que é, ao lado de Perfis de Euclides e outros perfis — com os impressionantes perfis de Augusto dos Anjos e do próprio Euclides da Cunha, — uma das obras mais animadas desse espírito abrangente que sempre viria a caracterizar o pensamento de Gilberto Freyre que, estando a igual distância tanto do cientificismo, quanto do filosofismo, plasmou todas as suas idéias com a sua própria substância humana, a ponto de nos declarar nessa mesma obra: “Todo artista verdadeiramente criador é, mais ou menos, autobiográfico; e todo artista verdadeiramente criador é, mais ou menos, um retrospectivo em potencial.”

Vida, forma e cor trata basicamente de arte e artistas — como prosadores, poetas, ensaístas, pintores, escultores, e até mesmo de um músico como Villa-Lobos — pois foi justamente como artista da palavra que ele começou a incomodar dois tipos igualmente curiosos e antipáticos da república das letras: os que o condenavam por fazer ciência, ainda que social, utilizando uma linguagem de elevado teor artístico, e aqueles que não conseguiam vê-lo como escritor literário porque, fazendo ciência, isso viria a contrariar, seguindo-se tão tolo raciocínio, a própria índole da literatura, o que fez Gilberto Freyre observar, em um dos passos dessa obra, que “segundo alguns mestres da crítica literária, nada devo pretender entender de literatura”, e confessar em outra parte: “Eu sou hoje o primeiro a afastar-me dos beletristas assim sectários, embora sem ligar-me aos sacerdotes devotos das seitas contrárias às suas: aquelas que julgam essencial a algum filósofo, tanto quanto ao bom sociólogo ou ao bom jurista ou ao bom antropólogo escrever arrevesado e desdenhar de todas as graças da vida e da cultura.”

Por isso, para ele, tanto pensar como fazer arte são atividades que envolvem empatia, como nos faz ver, por exemplo, em seu estudo sobre a fase afro-brasileira da poesia de Jorge de Lima: “Como se em arte e em literatura não houvesse empatia: a empatia que fez um Tolstoi identificar-se com a gente mais oprimida da Rússia, sendo ele de classe senhoril e até conde.” Não poderia haver, portanto, arte dotada de alguma autenticidade, ou arte que valesse a pena, sem uma ligação realmente vital com os temas que um artista escolheu. Em outra parte chega a afirmar: “A verdadeira literatura seria principalmente isto: revelação. Revelação da vida do homem, da natureza humana quase sempre.” Daí o nosso autor se horrorizar, com frequência, com o “escrever arrevesado” dos indivíduos “aliteratados” que veem as coisas apenas teoricamente, porém distantes do pulsar de sua realidade, como se a palavra teoria não significasse justamente visão das coisas que, uma vez vistas, é claro, poderiam ser pensadas.

Um dos ensaios mais instigantes, pela densidade, que se encontram no livro tem por título Modernidade e modernismo nas artes, pode ser resumido nesta sentença de cunho tipicamente freyriano: “Em todas as artes os modernistas passam, e os modernos ficam.” Nesse ensaio ele compara a contribuição revolucionária do marxismo, na política e nas ciências sociais, com o impacto modernista do cubismo nas artes quando do seu surgimento. Assim como o cubismo teve uma função disciplinadora, se constituindo numa nova ordem para a representação plástica das coisas e do corpo humano, também o marxismo, superado como ideologia, deixou sua contribuição metodológica nas ciências sociais e, do mesmo modo, na política, seu legado histórico para o avanço do igualitarismo econômico no modelo das democracias sociais, morta e superada sua forma modernista e revolucionária.

Um dos aspectos mais fascinantes, como podemos ver, do pensamento de Gilberto Freyre é o seu alcance simbólico, pois, se como escritor sabia que lidava com “todo um mundo de formas e cores — e sugestões de formas e cores — ao mesmo tempo particulares e gerais, gerais e universais”, como homem das ciências sociais conseguia, por sua vez, dotar os fatos estudados de formas simbólicas. Porque sabia como ninguém o poder das formas e das cores — também enquanto símbolos — em suas relações com a vida e com o homem.

Assim como não desconhecia as bases irracionais de muitos dos nossos conhecimentos racionais e lógicos, do mesmo modo não desprezava as intuições originárias que estão na base de toda atividade criadora como escreve em outro dos ensaios de Vida, forma e cor: “Tanto a poesia como a ciência criadora nos comunicam alguma coisa que é como uma virgindade: virgindade no ver, no ouvir e no pensar. São as duas juntas que desembaraçam o homem de tendência para se tornar convencional ou se endurecer dentro de convenções; para simplesmente soletrar os rótulos em vez de ver as coisas; para simplesmente escutar os ruídos já catalogados do mundo em vez de ouvir vozes novas e fora dos mesmos ruídos.”

Gilberto Freyre, ao diferenciar aquilo que é permanente no plano da cultura, daquilo que é meramente provisório — como na sua já clássica distinção entre modernismo (geralmente com aspas) e modernidade — foi, além de um criador de obras-primas ao mesmo tempo de ciência e de literatura, um verdadeiro modelador de homens. Foi assim não só com José Lins do Rego, a quem conseguiu converter de polemista tosco em um dos nossos maiores romancistas, como também com Jorge de Lima, de quem conseguiu a conversão de poeta neoparnasiano, já com mais de trinta anos, em um dos maiores da própria língua portuguesa. Foi assim com muitos dos seus contemporâneos, sobre os quais exerceu seu magistério simultaneamente científico e literário. Sua influência atingiu até mesmo o já experimentado Manuel Bandeira, a quem chegou a inspirar não só o poema Evocação do Recife, mas a leitura de poetas de várias línguas europeias que o poeta ainda não conhecia.

Foi, com certeza, dentro do espírito de uma nova ciência, que a obra freyriana encontrou abertura para novas disciplinas psicossociais e históricas, bem como para uma ampla interdisciplinaridade que veio tornar cada vez mais necessária a união entre a ciência e a literatura, sem perigo de nenhum desvio artístico nem de nenhuma redução de tipo cientificista.

Se no século XIX Tobias Barreto já diagnosticara que o Estado brasileiro teria precedido a nação enquanto realidade, — ao dizer no Discurso em mangas de camisa, “que o que há de organizado é o Estado, não é a Nação (...) não é o povo, o qual permanece amorfo, indiferenciado, sem outro liame entre si, a não ser a comunhão da língua, dos maus costumes e do servilismo,” — Gilberto Freyre, em pleno século XX, em seu ensaio Reinterpretando José de Alencar, constante também em Vida, forma e cor, estabelece um critério para interpretação da sociedade em que vivemos: “o critério de que essa cultura e essa sociedade se explicam principalmente como expressões ou resíduos de uma formação processada antes em torno da família patriarcal e escravocrática do que em volta do Estado, da Igreja ou do indivíduo. Antes em volta de casas-grandes de engenho, de fazenda, de estância e de chácara do que de catedrais, palácios de governo e casa de senado ou de câmara”.

Para Gilberto Freyre, diferentemente da visão de Tobias Barreto, o Estado ou ainda se encontra em formação, ou constitui um apêndice, aparentemente estranho, de uma sociedade ainda feudal. Tal subserviência, por exemplo, assinalada por Tobias Barreto, — e que está ativamente presente mesmo no meio intelectual — supostamente se revela, segundo nossa dedução de uma análise freyriana, pela ausência do indivíduo na formação social.

A plasticidade interpretativa dessa análise, entretanto, se abre para formas de acomodação que permitem a emergência de alguns indivíduos no plano da política, da religião, da arte e das ideias, de que temos exemplos em vários de seus perfis, como o estranhíssimo de Getúlio Vargas, em seu livro Interpretação do Brasil, os já citados do Perfil de Euclides e outros perfis — de Euclides da Cunha e de Augusto dos Anjos — e, neste livro, os de José de Alencar, Lima Barreto, José Lins do Rego, Cícero Dias, Lula Cardoso Ayres e Villa-Lobos, entre outros.

O escritor de Casa-grande e senzala é, em primeiro lugar, um homem e um artista que sabe lidar sabiamente com suas contradições — e coitados daqueles que não as conhecem — pois, sendo um autor fronteiriço entre dois sistemas — o da arte e o da ciência —, também se acha dividido mas se reencontra, por exemplo, na conciliação entre as idéias de um Maurras e de um Georges Sorel desenvolvidas à sua maneira: idéias antidemocráticas, do ponto de vista do modelo liberal e, ao mesmo tempo, outras, que nunca abandonará, de democracia social ou econômica, que o ajudaram a compreender provavelmente o elemento racial porventura defendido no sentido orgânico dessa democracia, como ele nos confessa no ensaio introdutório de Vida, forma e cor, Amy Lowell: uma revolucionária de Boston, à altura do seu conhecimento com a poetisa norte-americana.

Essa capacidade de lidar com contradições é que torna o nosso autor uma personalidade bastante diferenciada ante uma fauna intelectual que vem se alimentando, até agora, de sobejos de marxismo e de freudismo e que — como se a miséria ainda fosse pouca — das últimas décadas em diante passou a se deleitar com delírios desconstrucionistas, jogando sempre a realidade contra si mesma, em suas poses de doutores sem teses próprias e em seu infinito vigarismo intelectual.

Adversário, por igual, tanto do racismo quanto do coletivismo — que sempre nega ou tenta eliminar a individualidade —, Gilberto Freyre teria de entender claramente problemas como o da miscigenação quer racial, quer estética. Por isso, ao distinguir radicalmente modernismo de modernidade, ele nos leva à compreensão de uma continuidade, por meio da última, que perpassa e supera todos os ismos em sua irrelevância corriqueira, dado que ela se torna permanentemente criadora ao tomar como base a universalidade.

E é esse sentido de continuidade que marca a trajetória das culturas, e, nelas, de instituições como a arte, que aspirem a uma verdadeira universalidade no tempo e na História: porque há a presença do ethos, sem o qual essa história não passa de uma descontinuidade sem rumo e sem outro destino senão a desconstrução da própria finalidade do homem e, consequentemente, do seu ser.

A obra de Gilberto Freyre, por sua organicidade, inseparável de sua continuidade espiritual, por juntar arte e ciência, possui o dom intransferível de manter uma forte identidade em meio à miscigenação das mais desconcertantes diferenças; e isso tanto no plano racial do convívio entre os homens como, no plano estético, da relação entre as artes.

Por alguns comparado ao francês Michelet, genialmente um tanto desordenado na expressão do seu ensaio histórico; e, por outro, comparado ao também pernambucano Joaquim Nabuco, pela simetria entre o feitio humano e o estilo literário, ele também pode ser visto como uma espécie de Balzac dos trópicos, nas ciências sociais e na literatura: mas um Balzac, dotado das graças da linguagem, pois, assim como aquele, pela ficção, conseguiu ir além da literatura, também Gilberto Freyre, fazendo literatura, foi além da ciência. Finalmente, para quem tanto amou e estudou o seu país, deu-se a coincidência entre a obra legada e a dimensão continental do Brasil.

Autor: 
Ângelo Monteiro

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